{"id":437275,"date":"2018-08-15T09:09:58","date_gmt":"2018-08-15T09:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/essaypaper.org\/lisboa-cidade-triste-e-alegre-retratando-o-espirito-de-uma-epoca\/"},"modified":"2018-10-24T08:48:37","modified_gmt":"2018-10-24T08:48:37","slug":"lisboa-cidade-triste-e-alegre-retratando-o-espirito-de-uma-epoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.benedictsol.com\/blogs\/lisboa-cidade-triste-e-alegre-retratando-o-espirito-de-uma-epoca\/","title":{"rendered":"Lisboa, cidade triste e alegre \u2013 Retratando o esp\u00edrito de uma \u00e9poca."},"content":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\n Nesse ensaio, analisaremos o livro de fotografias Lisboa, cidade triste e alegre de autoria coletiva da dupla Victor Palla e Costa Martins. Nosso interesse nessa obra parte da curiosidade de entender as caracter\u00edsticas que a fizeram ser considerada um dos livros de fotografia mais importantes j\u00e1 feitos em Portugal e um dos mais apaixonados retratos sobre Lisboa. Come\u00e7aremos comentando o contexto em que esse livro foi publicado e faremos uma breve apresenta\u00e7\u00e3o dos seus autores para, a partir disso, pensarmos sobre a obra que publicaram: suas imagens, o layout, a diagrama\u00e7\u00e3o das imagens, as aproxima\u00e7\u00f5es com o cinema, a maneira como a dupla conjugou suas imagens com poesias de autores consagrados e como concatenaram tudo isso em um livro.<br \/>\n O contexto hist\u00f3rico \u00e9 importante, pois nos ajudar\u00e1 a perceber porque esse retrato l\u00edrico e imag\u00e9tico de Lisboa precisou aguardar quase meio s\u00e9culo para ter a sua import\u00e2ncia reconhecida. O ensaio ter\u00e1 como base as pesquisas j\u00e1 realizadas por outros autores, livros publicados sobre fotografia de Portugal, entrevistas de Palla sobre a obra e nas diversas mat\u00e9rias que foram publicadas quando finalmente o livro foi reeditado. <\/p>\n<p> Al\u00e9m disso, refletiremos sobre as iniciativas que fot\u00f3grafos contempor\u00e2neos est\u00e3o experimentando para construir retratos relevantes da sociedade atual. Veremos os problemas que os fot\u00f3grafos contempor\u00e2neos encontraram ao tentar dar voz ao presente utilizando os meios tecnol\u00f3gicos a sua disposi\u00e7\u00e3o e tra\u00e7aremos um paralelo com a empreitada realizada pela dupla Palla e Martins para materializarem Lisboa ( Lisboa em it\u00e1lico ser\u00e1 como iremos nos referir a obra assunto desse ensaio a partir de agora).<br \/>\n Contexto de Lisboa<\/p>\n<p> O contexto politico em Portugal no p\u00f3s-guerra n\u00e3o era dos melhores para os artistas que comemoraram a vit\u00f3ria da democracia sobre as ditaduras nazista e fascista. Ap\u00f3s a guerra, a prioridade das democracias ocidentais n\u00e3o era acabar com as outras ditaduras, mas sim, conter o avan\u00e7o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Por isso, naquele momento, era conveniente para as democracias encontrarem virtudes e at\u00e9 ajudar a manuten\u00e7\u00e3o do regime de Salazar. Dessa forma o regime portugu\u00eas conseguiu se manter firme durante o ressurgimento da oposi\u00e7\u00e3o e, conforme os seus vizinhos iam se recuperando, foi capaz de se colocar e crescer junto com as democracias europeias.<br \/>\n Na \u00e9poca que Lisboa foi publicado, Portugal passava por um per\u00edodo favor\u00e1vel, com a Europa recuperada, a industrializa\u00e7\u00e3o cresceu 8% ao ano (Ramos, 2009, p. 674). A m\u00e3o pesada da censura continuava cerceando as atividades art\u00edsticas que fossem dissidentes do discurso oficial, nessa \u00e9poca, exposi\u00e7\u00f5es eram fechadas antes mesmo da abertura, obras eram apreendidas, artistas eram exonerados de institui\u00e7\u00f5es onde lecionavam. A arbitrariedade, componente de regimes totalit\u00e1rios, era bastante presente. Algumas leis curiosas eram sancionadas, como a que proibia importa\u00e7\u00e3o de filmes dublados em portugu\u00eas, uma vez que era muito mais f\u00e1cil editar as legendas, traduzindo de forma a evitar temas subversivos, do que editar o \u00e1udio.<br \/>\n Muitos artistas portugueses, cansados da repress\u00e3o do regime, acabaram emigrando da sua terra natal. Escapando do sufocamento e da falta de oportunidades para sobreviver do seu trabalho sob o regime. Enquanto no resto da Europa democr\u00e1tica, os pa\u00edses j\u00e1 sofriam a ressaca do Plano Marshall, aonde o dinheiro norte-americano veio atrelado ao american way of life e, consequentemente, o capitalismo feroz.<br \/>\n A dupla Palla e Martins<br \/>\n E essa foi a \u00e9poca que a dupla Victor Palla e Costa Martins perambularam por Lisboa, capturando com suas c\u00e2meras um retrato humano de quem vivia na cidade, se distanciando dos cart\u00f5es postais para chegar mais perto do que realmente era Lisboa, em um movimento que podemos relacionar com o que C\u00e9zanne fazia em seus quadros, onde o pintor luta contra os clich\u00e9s para encontrar uma semelhan\u00e7a mais profunda do que a pura e simples representa\u00e7\u00e3o fiel (Deleuze, 1981\/2011), dando visibilidade pro que realmente importa, no caso da obra da dupla, os habitantes de Lisboa.<br \/>\n Victor Palla nasceu em 1922 e foi iniciado cedo na fotografia. Seu pai era fot\u00f3grafo amador e o jovem Palla cresceu ajudando o pai nessa empreitada \u201dComecei antes de saber ler. O meu pai era do teatro, mas era tamb\u00e9m fot\u00f3grafo amador, fazia e revelava as fotografias l\u00e1 por casa. Com tr\u00eas ou quatro anos, eu ia para o laborat\u00f3rio dele, achava muita gra\u00e7a e ajudava-o\u201d (Gomes, 1999). Al\u00e9m da fotografia, Palla era arquiteto, pintor, ceramista, designer gr\u00e1fico, editor, tradutor, galerista e uma figura presente em diversas iniciativas culturais (Pomar, 2009). Participou com os seus trabalhos em diversas exposi\u00e7\u00f5es, expondo ao lado de artistas importantes como Fernando Lanhas, J\u00falio Resende e J\u00falio Pomar.<br \/>\n A partir da d\u00e9cada de 50, come\u00e7a tamb\u00e9m a se dedicar a arquitetura tendo atua\u00e7\u00e3o relevante na moderniza\u00e7\u00e3o de Lisboa, como o Restaurante Galeto que visitamos recentemente e experimentamos a atemporalidade do balc\u00e3o desenhado por Palla. No design gr\u00e1fico mostra o seu talento visual criando capas para diversos livros e em 1952 fez um curso de Publica\u00e7\u00e3o e Produ\u00e7\u00e3o de Livros em Londres. Sua atua\u00e7\u00e3o como designer gr\u00e1fico foi contemplada em 2011 por um livro da cole\u00e7\u00e3o D. Essa vis\u00e3o e criatividade ficam evidentes quando analisarmos o assunto desse ensaio mais a frente.<br \/>\n Tamb\u00e9m nascido em 1922, Costa Martins foi colega de Palla na faculdade de arquitetura. Martins consegue um emprego assim que saiu do curso como arquiteto projetista no Minist\u00e9rio das Obras p\u00fablicas e foi respons\u00e1vel por alguns edif\u00edcios de habita\u00e7\u00e3o social em Olivais. Seu interesse por fotografia o levou a interromper durante dois anos a atividade de arquiteto para, junto com Victor Palla, trabalharem nesse projeto de fotografar Lisboa dia e noite, s\u00f3 voltando a casa para revelar os negativos (Marques, 2008).<br \/>\n Segundo Palla, a ideia do livro surgiu em um almo\u00e7o com Martins onde falavam sobre fotografia \u201cBill Brandt, na Picture Post; A Life (na sua melhor \u00e9poca); Cartier Bresson, Os Capa, Klein, a Magnum, n\u00e3o podiam deixar de vir a baila.\u201d (Palla. Apud. Pomar, 2010) e conversaram sobre a possibilidade de fazer um livro sobre Lisboa, em moldes mais livres e humanistas como as refer\u00eancias das quais conversaram, diferente da est\u00e9tica de salon, isto \u00e9, cenas da natureza e postais da cidade nos seus melhores \u00e2ngulos \u2013 o tipo de fotografia que era feita na \u00e9poca pelos fot\u00f3grafos portugueses visando ganhar os pr\u00eamios dos sal\u00f5es de fotografia.<br \/>\n Os sal\u00f5es de fotografia eram p\u00fablicos e, consequentemente, vigiados pela censura. Uma fotografia mostrando algo que n\u00e3o fosse do interesse do regime, por melhor que fosse, teria poucas chances de ser premiada. Basta lembrarmos o epis\u00f3dio que aconteceu em 1965 quando a Sociedade Portuguesa de Escritores decide agraciar o livro Luuanda do escritor angolano Luandino Vieira com o Grande Premio da Novel\u00edstica. Os integrantes do J\u00fari foram acusados de \u201ctrai\u00e7\u00e3o a p\u00e1tria\u201d, alguns foram detidos enquanto um grupo do PIDE assaltou e destruiu a sede do SPE. O jornal que publicou essa not\u00edcia foi suspenso por seis meses (Azevedo, 1990).<br \/>\n Pode ser um exemplo extremo, mas, como pontua Badger no texto para a reedi\u00e7\u00e3o do livro em 2009, fotografar Alfama nos anos 50 poderia ser considerado um ato de transgress\u00e3o, pois, diferente do bairro tur\u00edstico que conhecemos nos dias de hoje, na d\u00e9cada de 50, suas ruelas eram palco da mis\u00e9ria, da pobreza, da vida real dos trabalhadores que o regime salazarista preferia que ningu\u00e9m conhecesse (2009). Uma prova disso s\u00e3o os \u00e1lbuns oficiais do SNP (Portugal 1934 e Portugal 1940) e as outras iniciativas de divulga\u00e7\u00e3o de uma imagem de progresso da na\u00e7\u00e3o para a na\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m para o mundo, como a exposi\u00e7\u00e3o do Mundo Portugu\u00eas de 1940. Existe um esfor\u00e7o consciente e constante de que tudo pare\u00e7a estar indo muito bem.<br \/>\n Lisboa<br \/>\n Em 1958 as primeiras imagens s\u00e3o reveladas ao p\u00fablico lisboeta na Galeria Di\u00e1rio de Not\u00edcias em uma montagem arrojada, com percursos e cortes desestruturados no espa\u00e7o, j\u00e1 preconizando o que ver\u00edamos no design do livro. Na sequencia, outra exposi\u00e7\u00e3o aconteceu no Porto seguindo os mesmos moldes, por\u00e9m a recep\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi como esperado, segundo a pesquisa extensa de Marques (2008, p.97) \u201cAs ousadias experimentais de Palla\/Martins na devolu\u00e7\u00e3o de um retrato desfocado, recortado, disruptivo, da capital tiveram, no entanto, um reduzido impacto nos seus contempor\u00e2neos, passando praticamente despercebidas no provinciano contexto portugu\u00eas dos anos 50\u201d.<br \/>\n De quase 6000 negativos produzidos a dupla selecionou cerca de 200 imagens para compor o livro que a dupla estava a cerca de tr\u00eas anos desenvolvendo. Em uma entrevista, Palla nos conta um pouco mais sobre o que os influenciou:<br \/>\n T\u00ednhamos visto um livro do William Klein sobre Nova Iorque e ach\u00e1mos que seria interessante fazer um livro sobre Lisboa. Apesar de gostar muito do livro do Klein, julgo que, globalmente, o nosso livro \u00e9 diferente, quer do ponto de vista fotogr\u00e1fico, quer gr\u00e1fico. Teria que ser um livro diferente. Quer\u00edamos um livro n\u00e3o comercial, n\u00e3o extraordin\u00e1rio, n\u00e3o pitoresco. Quer\u00edamos um livro simples, directo, sobre a vida do povo de Lisboa, procurando retratar aquilo que era singular e que diferenciava Lisboa de todas as outras cidades. (Palla apud Henriques, 2010, p.49)<br \/>\n E de fato Palla e Martins fizeram um livro \u00fanico, unindo poesias e imagens cativantes e cruas, como num fluxo natural do que viam pela cidade triste e alegre. Seu design ousado com cortes, diferentes tamanhos de p\u00e1ginas, e layout que mais lembra uma montagem cinematogr\u00e1fica e garantem uma experi\u00eancia est\u00e9tica bem diferente do que acontecia nas publica\u00e7\u00f5es do mundo fotogr\u00e1fico do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 a toa que esse livro foi inclu\u00eddo como um dos mais importantes do mundo na colet\u00e2nea sobre fotolivros organizada pelo fot\u00f3grafo Martin Parr e o historiador de imagens Gerry Badger.<br \/>\n Com textos e poesias de personalidades como Fernando Pessoa, M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro, Almada Negreiros e in\u00e9ditos \u00e0 \u00e9poca de Eug\u00e9nio de Andrade e Alexandre O\u2019Neill, o livro ainda conta com um \u00edndice, onde a dupla, assinando coletivamente, reflete sobre cada p\u00e1gina do trabalho, falando sobre a t\u00e9cnica, local onde a foto foi feita e tamb\u00e9m sobre as refer\u00eancias que guiaram a escolha das imagens para compor o livro e, \u00e9 claro, sobre a ideia que ambos tinham sobre Lisboa.<br \/>\n Nas imagens de Palla e Martins, mais importante do que a impress\u00e3o saudosista de uma Lisboa que n\u00e3o existe mais \u00e9 o registro de uma Lisboa viva. Os enquadramentos, os flagrantes, as express\u00f5es, as vestimenta, as situa\u00e7\u00f5es, para citar algumas das pe\u00e7as do quebra cabe\u00e7a que era Lisboa da d\u00e9cada de 50. As cenas retratadas e vividas pela dupla captaram o esp\u00edrito de uma \u00e9poca, da mesma forma como o trabalho de seus contempor\u00e2neos como o New York (1955) de William Klein, The europeans (1955) de Cartier Bresson, Love on the Left Bank (1955) de Ed Van der Elsen.<br \/>\n No Livro Lisboa, vemos uma consciente escolha autoral e vision\u00e1ria de duas pessoas que sabiam o que o que estavam fazendo: retratando uma cidade como um \u201cpoema gr\u00e1fico\u201d (nome provis\u00f3rio do livro), de maneira singular e subjetiva. Vale lembrar que ambos, al\u00e9m de terem nascidos em Lisboa, eram arquitetos e atuavam na cidade, isto \u00e9, conheciam a cidade como poucos e isso fica evidente no trabalho fotogr\u00e1fico que realizaram.<br \/>\n Suas p\u00e1ginas sangradas em p\u00e1ginas duplas ou recortadas em formatos menores, \u00e0s vezes impressas em papel amarelo ou com sequ\u00eancias de imagens reproduzidas como filme cinematogr\u00e1fico. As cenas noturnas lembram a atmosfera de uma das obras primas do cinema italiano Noites de Cabiria (Fellini, 1958), lan\u00e7ado no mesmo ano das exposi\u00e7\u00f5es, dialogando com o de mais relevante acontecia no cinema mundial.<br \/>\n No final do livro, temos o \u00edndice que merece um trabalho a parte para analisar os aforismos que a dupla assina coletivamente. Por agora, podemos pontuar o ressurgimento de coletivos fotogr\u00e1ficos como um dos fen\u00f4menos mais significativos da fotografia contempor\u00e2nea, onde indiv\u00edduos abrem m\u00e3o de autoria para terem for\u00e7a em grupo, numa busca por maior representatividade no mercado de trabalho ou como troca de saberes na cria\u00e7\u00e3o conjunta.<br \/>\n Ainda sobre o Lisboa, mesmo tendo sido lan\u00e7ado em fasc\u00edculos para possibilitar o acesso da obra ao publico e possibilitar a produ\u00e7\u00e3o da mesma (atrav\u00e9s de um esquema de assinaturas), segundo Souza \u201cao contrariar os gostos dominantes, se tornou num fracasso editorial.\u201d (2008). Esse tipo de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais um dado para compormos o retrato da \u00e9poca no qual o livro foi lan\u00e7ado. Curioso \u00e9 saber que pouqu\u00edssimos exemplares da primeira edi\u00e7\u00e3o ainda podem ser encontrados. Mais raro ainda se tornaram depois da inclus\u00e3o na lista de mais influentes do mundo (Parr e Badger, 2004) Em maio de 2007, um exemplar em boas condi\u00e7\u00f5es foi vendido no leil\u00e3o Christie\u2019s em Londres por aproximadamente 14.000 euros para um colecionador particular norte-americano (Gomes, 2009).<br \/>\n Ap\u00f3s essa s\u00e9rie de eventos, o livro foi republicado em um esfor\u00e7o de outra dupla de fot\u00f3grafos, Jos\u00e9 Pedro Cortes e Andr\u00e9 Pr\u00edncipe, atrav\u00e9s da editora Pierre von Kleist Editions. A nova edi\u00e7\u00e3o de 2009, foi feita tentando ser o mais pr\u00f3ximo da da primeira, incluindo ainda um suplemento com uma nova introdu\u00e7\u00e3o de Gerry Badger (2009). Segundo relato da nova dupla, a nova edi\u00e7\u00e3o deu trabalho pois muito negativos se perderam e o processo gr\u00e1fico utilizado (rotogravura) na primeira edi\u00e7\u00e3o foi descontinuado (Gomes, 2009). O resultado foi um sucesso total, rapidamente esgotada e uma nova edi\u00e7\u00e3o foi feita em 2015.<br \/>\n Em vez de nos alongarmos sobre a nova edi\u00e7\u00e3o, iremos pensar em sobre o trabalho realizado por Palla e Martins sob o ponto de vista contempor\u00e2neo. Isto \u00e9, como os fot\u00f3grafos est\u00e3o fazendo hoje em dia para retratar a nossa \u00e9poca de forma relevante como a dupla fez em Lisboa na d\u00e9cada de 50?<br \/>\n Retrato de uma \u00e9poca<br \/>\n O Professor Norte-americano Fred Ritchin em uma entrevista para a revista Foam fez uma provoca\u00e7\u00e3o sobre a fotografia social que ainda \u00e9 publicada nos dias de hoje:<br \/>\n A fotografia de cunho social que as pessoas praticam \u00e9 o \u00fanico caminho que conhe\u00e7o que alcan\u00e7ou seu ponto alto na d\u00e9cada de 1930 \u2013 se apenas pud\u00e9ssemos fotografar como Robert Capa, ou Dorothea Lange, ou a Farm Security Administration, ter\u00edamos sucesso. Os cineastas n\u00e3o pensam assim, os romancistas n\u00e3o pensam assim, ningu\u00e9m mais pensa assim. Mas basta voc\u00ea olhar para os vencedores do Barnack Awards para ver que o que consideramos um forte trabalho de documenta\u00e7\u00e3o social n\u00e3o mudou muito. Robert Capa ainda poderia ganhar o pr\u00eamio. Se voc\u00ea olhar para o cinema \u2013 Hitchcock, Tarantino e assim por diante \u2013 h\u00e1 uma progress\u00e3o para novas formas de filmar. Se voc\u00ea olhar para romancistas, Hemingway provavelmente n\u00e3o ganharia um pr\u00eamio hoje. Mas na fotografia social particularmente sobre quest\u00f5es de import\u00e2ncia internacional \u2013 os pontos de refer\u00eancia s\u00e3o muitas vezes trabalhos que foram feitos tr\u00eas quartos de s\u00e9culo atr\u00e1s. (Ritchin, 2011, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<br \/>\n O coment\u00e1rio de Ritchin tem a ver com a est\u00e9tica de Salon que, como comentamos aqui, ignorava trabalhos vision\u00e1rios como Lisboa. O Incr\u00edvel \u00e9 pensar que essa entrevista foi dada em 2011, isto \u00e9, nas ultimas d\u00e9cadas a fotografia digital mudou o mundo: Todos temos uma c\u00e2mera no bolso e, no entanto, os crit\u00e9rios que os gatekeepers utilizam para colocar um trabalho em evid\u00eancia, parecem ser os mesmo dinossauros que fizeram o trabalho da dupla Palla e Martins ficar esquecido por d\u00e9cadas. Uma consequ\u00eancia imediata dessa mentalidade persistente seria o fato da dupla n\u00e3o ter publicado outros livros. Isso \u00e9 uma pena pois quantos outros retratos de Lisboa deixamos e deixaremos de conhecer?<br \/>\n Ainda sobre o coment\u00e1rio de Ritchin, podemos pensar em alguns trabalhos feitos por fot\u00f3grafos contempor\u00e2neos que, assim como a dupla Palla e Martins fez sobre Lisboa na d\u00e9cada de 50, est\u00e3o criando imagens que retratam a nossa sociedade atual de forma pontual e n\u00e3o convencional.<br \/>\n Rog\u00e9rio Reis \u2013 Ningu\u00e9m \u00e9 de ningu\u00e9m<br \/>\n O fotojornalista e artista brasileiro Rog\u00e9rio Reis faz um trabalho nas praias do Rio de Janeiro que dialoga com a dupla lisboeta e com muitos outros fot\u00f3grafos que buscavam o flagrante nas ruas. A diferen\u00e7a \u00e9 que Reis utiliza bolinhas coloridas para n\u00e3o identificar o rosto das pessoas retratadas. Seu trabalho discute a pol\u00eamica sobre o direito de imagem de cada individuo e o direito do autor de criar. Salvo raras exce\u00e7\u00f5es, hoje em dia, \u00e9 necess\u00e1rio autoriza\u00e7\u00e3o por escrito de toda e qualquer pessoa que apare\u00e7a em uma imagem a ser publicada, isto \u00e9, caso voc\u00ea n\u00e3o tenha interesse em ter seu livro removido das estantes por uma ordem judicial ou pagar multas. Rog\u00e9rio Reis trabalha h\u00e1 muito anos com fotografia e esse trabalho \u00e9 um desabafo sobre a dificuldade de continuar registrando o cotidiano da sua cidade. Imagens como os flagrantes furtados das pessoas nas ruas ou as crian\u00e7as brincando nas primeiras p\u00e1ginas de Lisboa requereriam uma burocracia t\u00e3o grande que arriscamos dizer que o livro n\u00e3o seria poss\u00edvel de ser feito nos dias atuais. Basta recordar dos 6000 negativos que a dupla fez para deduzirmos o quanto laborioso seria essa empreitada jur\u00eddica.<br \/>\n Eu vinha notando na imprensa que toda segunda-feira surgia a mesma foto nos jornais, que s\u00f3 apareciam os guarda-s\u00f3is. Estava engessado pela quest\u00e3o do direito de imagem. Ent\u00e3o eu quis criar um personagem e virar um paparazzi dos an\u00f4nimos na praia. Comecei a fazer fotos r\u00e1pidas, com foco autom\u00e1tico, sem a permiss\u00e3o das pessoas. Queria que n\u00e3o percebessem e formassem um conjunto de imagens bem espont\u00e2neas. (Reis, 2014).<br \/>\n Ningu\u00e9m \u00e9 de ningu\u00e9m utiliza de forma l\u00fadica e humor\u00edstica tarjas da censura jornal\u00edstica em suas imagens para discutir quest\u00f5es s\u00e9rias ligadas a fotografia, liberdade individual e tamb\u00e9m retrata a sua \u00e9poca de uma forma muito peculiar: n\u00e3o mostrando para mostrar. Este trabalho foi adquirido integralmente pela Maison Europ\u00e9enne de la Photographie.<br \/>\n Peter Funch \u2013 Babel Tales<br \/>\n Babel Tales expande o significado da fotografia documental ao criar uma colagem digital atrav\u00e9s do processo de registrar fotograficamente o mesmo lugar, da mesma posi\u00e7\u00e3o 1000 \u00e0s vezes at\u00e9 10000 vezes para conseguir uma imagem orquestrada repleta de coincid\u00eancias e clich\u00e9s da fotografia de rua (McClelland, 2011). Uma vez que n\u00e3o h\u00e1 encena\u00e7\u00e3o e sim um acoplamento digital de coisas que de fato aconteceram naquele local em momentos diferentes, seu trabalho \u00e9 ao mesmo tempo documental e ficcional.<br \/>\n Da mesma forma que Palla e Martins se utilizaram do corte, das p\u00e1ginas com tamanhos e formatos diferentes, Funch se utiliza dos meios tecnol\u00f3gicos do seu tempo para discutir o cotidiano das pessoas na cidade. Sua proposta nos remete as p\u00e1ginas do livro da dupla quando os mesmos privilegiam atividades corriqueiras da vida em Lisboa como nas p\u00e1ginas dedicadas as pessoas estendendo roupa pela janela (pp. 48-49) ou as p\u00e1ginas onde vemos freiras andando pela cidade (pp. 106 e 107) ou nos diversos retratos de mulheres carregando objetos em cestas em cima da cabe\u00e7a.<br \/>\n Nas colagens de Babel Tales, a repeti\u00e7\u00e3o ao extremo das coincid\u00eancias e a perfei\u00e7\u00e3o na qual s\u00e3o confeccionadas as colagens, nos remete ao surrealismo, mas especificamente a um conceito muito explorado pela arte desde que Freud o cunhou que \u00e9 o Inquietante onde uma coisa pode ser familiar e estranha ao mesmo tempo. A fotografia, por defini\u00e7\u00e3o, tem esse conceito atrelado a sua condi\u00e7\u00e3o. Nas fotos de Lisboa, vemos lugares e pessoas conhecidas e desconhecidas ao mesmo tempo, em Babel Tales esse conceito \u00e9 alavancado ao extremo onde s\u00f3 nos resta contemplar o absurdo.<br \/>\n Michael Wolf \u2013 A Series of Unfortunate Events<br \/>\n Em uma proposta radical, Michael Wolf registra flagrantes que encontra enquanto passeia pelas ruas da cidade de Paris atrav\u00e9s do Google Street View. Um dos projetos pol\u00eamicas da gigante da inform\u00e1tica \u00e9 a cataloga\u00e7\u00e3o das ruas das cidades do mundo atrav\u00e9s de uma megaopera\u00e7\u00e3o com diversos carros equipados com c\u00e2meras que capturam 360 graus de onda passam. Essas imagens s\u00e3o processadas e disponibilizadas na internet. Como Reis, os rostos e as placas dos carros nas imagens s\u00e3o preservados atrav\u00e9s de poderosos algoritmos que encontram e desfocam respeitando a privacidade das pessoas que s\u00e3o flagradas pelas c\u00e2meras. Esse projeto da Google gerou muita pol\u00eamica quando foi lan\u00e7ado. Mesmo ap\u00f3s 10 anos de funcionamento, muitos pa\u00edses ainda n\u00e3o permitiram o mapeamento do seu territ\u00f3rio.<br \/>\n Em 2009, quando Wolf se muda de Hong Kong para Paris, percebe que a cidade pouco tinha a oferecer para ele fotograficamente. Seus projetos anteriores envolviam registrar o crescimento anormal das cidades chinesas. Paris, basicamente, n\u00e3o se modificou nos \u00faltimos 100 anos. Sua ultima mudan\u00e7a foi registrada incansavelmente por Eug\u00e8ne Atget que sobrevivia proporcionando registros fotogr\u00e1ficos da cidade para artistas utilizarem em seus trabalhos. Suas fotografias, que na \u00e9poca mal pagavam suas contas, hoje em dia s\u00e3o consideradas como um dos trabalhos fotogr\u00e1ficos mais importantes mundo, influenciando gera\u00e7\u00f5es de artistas e fot\u00f3grafos, como o registro de Lisboa. Ciente disso, Wolf resolveu utilizar as imagens que as c\u00e2meras da Google captavam das ruas da cidade em seu trabalho art\u00edstico.<br \/>\n O registro indiferente e maquinal que os carros produziam das cenas de rua foram selecionados e apropriados por Wolf ap\u00f3s dias inteiros percorrendo a cidade de Paris sem sair de casa. Subvertendo completamente o conceito de fotografia de rua, o trabalho de Wolf consegue flagrantes t\u00edpicos do que vemos estampados em publica\u00e7\u00f5es, algumas imagens at\u00e9 lembram cl\u00e1ssicos da fotografia (fig). Ao romper os limites da fotografia como conhecemos e trazer a discuss\u00e3o sobre a vigil\u00e2ncia e o que \u00e9 de fato fotojornalismo, em 2011 A Series of Unfortunate Events recebeu men\u00e7\u00e3o honrosa pelo World Press Photo, atraindo a aten\u00e7\u00e3o e, como era de se esperar, causando pol\u00eamica no mundo da fotografia.<br \/>\n Conclus\u00e3o<br \/>\n Nesse ensaio vimos o contexto hist\u00f3rico no qual a dupla Palla e Martins publicou o livro Lisboa, apresentamos seus autores, conhecemos um pouco as caracter\u00edsticas que fazem Lisboa um livro \u00fanico na sua \u00e9poca e ainda hoje. E tamb\u00e9m falamos sobre a sua recep\u00e7\u00e3o na \u00e9poca do lan\u00e7amento e o ressurgimento ap\u00f3s seu valor ser reconhecido por especialistas na \u00e1rea. Depois refletimos sobre como fot\u00f3grafos fazem atualmente para retratar a sociedade atual de forma relevante como Lisboa foi a sua \u00e9poca.<br \/>\n Al\u00e9m de falarmos de Lisboa, exploramos de forma paralela a quest\u00e3o do conservadorismo das bancas de sal\u00e3o, isto \u00e9, pessoas que exercem o poder de colocar em evid\u00eancia trabalhos art\u00edsticos, os famoso gatekeepers. Pelo percurso que fizemos, esse \u00e9 um problema n\u00e3o s\u00f3 de Portugal. Aconteceu com a dupla Palla e Martins de forma indireta e quase aconteceu de forma direta com Michael Wolf, quando e-mails, coment\u00e1rios negativos e mat\u00e9rias surgiram criticando a sua men\u00e7\u00e3o honrosa pelo premio mais importante de fotojornalismo do mundo.<br \/>\n O nosso interesse em analisar Lisboa vem atrelado a outro livro mencionado pela b\u00edblia dos fotolivros de Parr e Gadger. Da mesma forma que Lisboa \u00e9 o \u00fanico livro portugu\u00eas mencionado, Silent book (1997), do artista Miguel Rio Branco \u00e9 o \u00fanico livro brasileiro mencionado. Esta ultima foi tema de monografia de conclus\u00e3o de curso de gradua\u00e7\u00e3o em Cinema na UFF. Por isso o interesse em estudar um pouco a obra portuguesa.<br \/>\n O \u00edndice de Lisboa, conforme mencionado no trabalho, merece um estudo a parte. S\u00e3o duas pessoas apaixonadas pela cidade, por fotografia e a narrativa de cumplicidade \u00e9 contagiante. Sei que evitamos falar no \u00edndice, mas fecharemos o trabalho com uma cita\u00e7\u00e3o que para, quem sabe, aprofundarmos esse estudo em uma disserta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n Temos insistido em que o of\u00edcio de fot\u00f3grafo se deve afastar muito do obter \u201cbonitas\u201d provas soladas, pequenos quadros de cavalete auto-suficientes e v\u00e1lidos por si. Hoje tudo tende a separ\u00e1-lo desse esteticismo de \u201csalon\u201d: o novo idioma da reportagem fotogr\u00e1fica, as grandes revistas ilustradas, os livros documentais ou de \u201cpicture-stories\u201d. E o simples facto de uma fotografia se destinar a ser inclu\u00edda num conjunto, gravada, impressa, vista por milhares de leitores, tem por for\u00e7a de originar caracter\u00edsticas especiais, determinar uma est\u00e9tica, talvez at\u00e9 toda uma filosofia (Palla e Martins, 1959, p. 160)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Nesse ensaio, analisaremos o livro de fotografias Lisboa, cidade triste e alegre de autoria coletiva da dupla Victor Palla e Costa Martins. 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